Jotabasso Entrevista: “Neste momento, o mais importante é pensar se o ano vai ser rentável ou não”

Especialista alerta para a importância de uma segunda safra assertiva para evitar mais prejuízos no ciclo 2018/2019

O clima quente e seco em diversas regiões do Brasil afeta diretamente o resultado da safra 2018/2019 de soja. Com isso, a produção deve ficar entre 117 e 118 milhões de toneladas, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e consultorias do setor. Inevitavelmente, também são atingidos os custos do produtor com o ciclo.

Em dezembro do ano passado a Conab chegou a divulgar projeção de crescimento de 1,8% na área de plantio e de 0,7% na produção, que poderia chegar a 120,1 milhões de toneladas. Já a Agroconsult apontou produção de 122,8 milhões de toneladas, no entanto, a consultoria agora estima colheita de 117,6 milhões de toneladas da oleaginosa no Brasil.

O engenheiro agrônomo Mauro Osaki, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), aceitou conversar com a Sementes Jotabasso sobre esse cenário.

Mestre em Ciência Econômica Aplicada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), e doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de São Carlos, Osaki alerta para a necessidade de uma segunda safra bem planejada para que o produtor não diminua ainda mais seus ganhos.

A entrevista foi dividida em duas etapas, confira a primeira parte:

JB - No início do ano passado falava-se que os custos com insumos na safra brasileira de soja 2018/2019 deveria subir. Esse cenário se confirmou?

Nossa estimativa inicial era que o custo total tivesse um leve recuo de em torno de 2%, como o que orçávamos para a região de Dourados (MS). Com esse número, considero que os custos ficaram estáveis; quando passa de 5% é que começa a fazer diferença de fato. Já no Mato Grosso, temos um orçamento em torno de 5% a 7% de aumento.

O que chama atenção nesse grupo são os gastos maiores com insumos, como fertilizantes, que subiram mais, bastante mesmo. O valor real deles em Dourados chega a 10% de aumento. Em Sorriso (MT), 6,6% mais caros e, em Primavera do Leste (MT), 9,8%. De maneira geral, herbicidas, fungicidas e também alguns inseticidas ficaram de 6% a 10% mais caros.

O restante dos itens teve um pouco de valorização, mas não o suficiente para zerar a variação dos custos, isso tudo considerando o custo real dos insumos, descontando a inflação.

Esses dados serão fechados em maio, quando iremos a campo tratar diretamente com os produtores para chegar nos números exatos. O levantamento que temos até o momento são dados de orçamento da safra.

JB - O que esses números representam para a rentabilidade do produtor?

O produtor deve sempre pensar em proteger margem e não buscar somente produtividade, ela tem que estar adequada a quanto vai sobrar no bolso dele. O produtor fecha seu orçamento de custo em cima de uma expectativa de produção e preço. O ideal não é ficar pegando dinheiro de uma safra para ficar salvando a conta da outra. Agora, tem que fechar a conta.

Lá trás, o produtor fez um orçamento de custos em cima de outra estimativa de produção, mas tivemos queda de produtividade devido à seca. Então nosso problema hoje está aí, na receita.

Neste momento, o mais importante é pensar se o ano vai ser rentável ou não, e não necessariamente nos custos. A conta do custo está dada e precisamos de uma receita bruta suficiente para saldar o custo. Muito produtor vai zerar a conta por conta da seca.

O fechamento dessa safra vai encerrar um pouco complicada devido à queda na produtividade. Em algumas regiões do Brasil, como no Bolsão de Mato Grosso do Sul, temos áreas bem afetadas. No oeste do Paraná, também, uma produtividade tão baixa que a conta não fecha.

O produtor fez tudo certo, elaborou o planejamento antes, mas quando chegou o período que precisava chover, não choveu. Ou seja, todo o planejamento feito foi por água abaixo. Isso é bastante complicado para o produtor. Quem fez seguro de produção conseguiu minimizar a perda. Por outro lado, quem ignorou terá que recuperar em outra safra.

JB - Quais medidas ainda podem ajudar o produtor a minimizar os custos da safra 2018/2019, principalmente com a aproximação da segunda safra?

Parece que a formação do El Niño está se intensificando, então a segunda safra está bastante arriscada. A saída é selecionar bem as cultivares e trabalhar na construção do perfil do solo, incluir rotação de cultura pensando na formação de palhada, e fazer uma boa cobertura para conseguir um perfil que consiga reter por bastante tempo a umidade - é a famosa “poupança de água”.  O produtor tem que começar a pensar nisso para que ele realmente consiga superar períodos de escassez de água. Além disso, deve procurar mecanismo alternativo para reduzir custo como, por exemplo, manejo integrado de praga e introduzir gradativamente o controle biológico.

Na crise é preciso buscar dinheiro mais rápido para fechar a conta. Essas alternativas precisam ir sendo introduzidas ao longo do período para que os resultados apareçam para o produtor.

E, claro, regular bem as máquinas, ver se não está tendo desperdício na hora da colheita, tudo isso também é importante e faz parte de uma sequência de acertos para colher bons resultados.

JB - O milho ainda continua sendo uma aposta acertada e segura de investimento para a segunda safra? Existem outros caminhos mais favoráveis economicamente?

Ele é a alternativa que otimiza o uso das máquinas, mão de obra e reduz a sazonalidade do fluxo caixa da fazenda. Mas a segunda safra é a que mais depende de chuva. Ultimamente, o investimento com o milho tem sido um valor um pouco descasado com a rentabilidade do produtor, a coisa não está legal. Eu pensaria em procurar uma alternativa secundária que pudesse se encaixar no sistema pensando na palhada e, se resultar em renda, melhor ainda. Se é para fazer, que não seja para somar ainda mais perda. É preferível que o produtor utilize apenas 30% da área para a segunda safra, mas que faça bem feito.

O milho pode ser uma das opções, mas ter duas opções seria legal. O milho é uma atividade de muito risco, então é preciso diversificar colocando mais um produto junto para não deixar o produtor dependente de apenas uma cultura. 


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